Tuesday, September 23, 2008
Ideias por encaixe
Como se a eternidade
Não existisse.
E eu, que ninguém mais via,
Era feliz,
E nem o sabia.
Friday, August 15, 2008
Tuesday, August 05, 2008
O Vácuo
"O Vácuo
Deixou a casa para trás. Aquela rua cansava-o também. Por isso esperou mais um pouco até atravessá-la para poder pensar no caminho a seguir. Tinha aquela manhã toda para desfrutar, mas embora do céu pudesse contemplar o céu, para que nesse mesmo se espelhava a verdade de que por mais que ele andasse nesta pequena terra, nunca poderia ultrapassar, ou evacuar-se, daquele sentimento de menoridade.
A solução, encontrara-la, já, no trabalho. Através de um conjunto de contas matemáticas dele com outros seres humanos da sua espécie, conseguia vender umas horas do seu dia em que se mantinha activo em troco dum salário que lhe permitia viver esta vida, mas de uma maneira menos custosa. Nomeadamente através de regalias como almoços e jantares múltiplos, o copo de cerveja quando bem lhe apetecesse, um livro ou outro aqui, o CD da sua banda preferida, se o achasse, e até uma prendita para a namorada1, e para os irmãos e demais familiares também.
Ele conseguia ver duma certa forma que esta vida era melhor do que a que tera faz anos poucos vindos, no entanto, de vez em quando um abismo do qual nunca saíra senão por instantes, fazia-o pensar que a chance de tudo se perder era sempre perigosa, e presente, demais. Nomeadamente (recorre-se outra vez a este advérbio) porque o seu espírito de poeta, que também já estivera mais separado dele, sempre tivera aquela propensão para o desvio, ou para o vácuo, ou para algum lado fora desse negro que habitava dentro de si próprio.
Era Domingo, um dia santo, e um dia de prezar, porque no meio de todo o compromisso poderia ao menos estar só, sem compromissos, e desfrutar do tempo todo como bem entendesse. Não que acabasse por fazê-lo da maior parte das vezes, já que as noites tontas dos sábados às noites eram transformadas num remorso do qual a própria mente e a visão fugiam, durante o sétimo dia completo, e se ocultavam numa nova noite (em contraste com o dia que até podia ser belo lá fora) e que se formava dentro dos seus sonhos (se é que ainda se pode usar este termo, sob pena de estarmos já a disfarçar o que não é sonhos, de sonhos. De qualquer maneira, pesadelos também não seriam obrigatoriamente. Mas talvez a vida lá fora, depois de tanta tontura, acabasse ela por se revelar um pesadelo. E nesse caso, a melhor saída, acabava por ser mesmo, fechar os olhos, e esperar retomar o ritmo diário, onde supostamente alguma coisa de produtivo, ou de não-mau, seria feita). De qualquer maneira, adormecia e criava essa nova noite, onde buscava sonhos, durante o dia, e quando acordava, as mais das vezes, acabava por ser já mesmo de noite.
O problema maior que teria, peut-être, seria então mesmo, o não saber o que fazer com esses tempos livres, essa liberdade, essa realidade, da qual poderia ser dono, ou então escravo. A escolha simples. Dono... ou escravo. Dono. Sim. Escravo. Não. Obviamente. Uma escolha que parecia tão simples, como respirar, era desaguada, no fundo, não muito dificilmente por escolhas que não hesitava em tomar, constantemente, como se o grito do abismo (como se fosse a morte) o atraísse irremediavelmente. Como uma vingança que tinha programada contra si próprio por não ter nunca atingido a felicidade nos momentos em que a desejara. Ou para pagar a culpa de não ser o homem que sempre quisera ser. Algo desse jeito. Algo assim. Algo ao mesmo tempo indescritível, mas também somente até ao ponto em que desejasse ser descrito. Talvez incompreensível, apenas, na idade da intuição, mas que a idade do sonho (ou do não-pecado e não-arrependimento) pudesse fazer chegar ao entendimento.
Continuou o passeio. Puxou dum cigarro e esqueceu-se por um momento das profundezas que ao mesmo tempo revelavam dúvidas mais seguras e certezas mais suaves, permutando com uma leve dor de cabeça que teimava em atacar-lhe de quando em vez. Talvez fosse e era mesmo o peso dos anos perdidos. Percebera já que os tempos de camaradagem eterna com os diversos seres que habitavam o mesmo planeta que ele o poderiam levar a todo o tipo de experiências, mas nos confins da percepção, não coincidiam realmente com aquilo a que se pode sempre chamar de paz ou de tranquilidade, ou mesmo de moralidade.
Na idade em que vivia, o mais importante resumia-se afinal ao profissionalismo. E o cigarro que fumava fazia-lhe sempre recordar inconscientemente tudo o que queria esquecer, queria apagar. Queria de algum modo olvidar todas aquelas noites perdidas a fazer nada, e que no meio desse fazer nada um mundo louco à sua volta o tinha tentado convencer de que havia milhares de caminhos por onde achar a felicidade, fracos oásis que quando o Sol nascera já se tinham desvanecido numa raiva cega que alimentava também sem sequer saber. Tudo já se tornara automático nesse seu mundo, sem ele sequer se recordar de quando é que realmente a vida fora algum dia diferente.
Assaltavam-lhe outros sentimentos de quando em vez. Ora a tentativa de gastar todas as suas energias, envidar todos os seus esforços, usurpar de todos os seus recursos, para fazer outras pessoas felizes, ajudar outras causas. Tudo escapadelas fáceis para quem não queria enfrentar afinal a questão mais difícil e que era simples. “- E tu? Que queres fazer de ti? Quando te ajudarás a ti próprio?” Realmente, quando os outros querem ajuda, normalmente a necessidade deles salta-nos à vista, para nos apercebermos do seu pedido de auxílio, de socorro. É fácil. É só aquiescer. Aceitar ajudar. Fazer. Sentir uma falsa felicidade, convencido de que o nosso papel no mundo estará mais completo, mais pontos, mais créditos para entrar no paraíso. Ao invés, evitando olhar para dentro, evitando entrar num labirinto criado por nós, evitando enfrentar a realidade, as nossas fraquezas, as nossas culpas, esquecemos para quase sempre este coração que nos habita. “-Zé, e a tua causa? Ficará para quando? Para quando morreres?” Simples pergunta. Resposta aterrorizadora. Uma resposta que implica desfazer tantos males, substituí-los por tantos bens, que só mesmo Deus na sua imensa paciência e na sua imensa disponibilidade poderia de algum modo ajudar. Deus, com o Sol e todas as coisas.
A brincadeira é fácil. Quando a parada aumenta, aí é mais fácil olhar para o lado, perder, esquecer, não querer saber. E ainda mais fácil é arranjar desculpas.
Segui manhã afora.
- 1Namorado afér. de enamorado adj., requestado, galanteado; enamorado, apaixonado; meigo, amoroso;
- s. m., aquele que é requestado ou que requesta; amante; conversado. Namorar afér. de enamorar v. tr., galantear, requestar; cativar; procurar inspirar amor a; pretender o amor de; andar de namoro com; fig., atrair, seduzir; desejar muito, cobiçar; olhar com enlevo; v. int., inspirar amor a; ter namoro; afeiçoar-se; agradar-se (de alguma coisa); apaixonar-se. in Dicionário Priberam On-line
- Isto para dar mais significância ao sentido de requestar, pretender o amor de, do que menos propriamente ao sentido de dono e senhor duma relação de namoro, recíproca, e que parece que hoje em dia é comummente o único sentido que se recorda para a palavra"
Thursday, May 15, 2008
Com escrúpulos
Numa entrevista, uma rapariga afegã interrogava-se sobre a viabilidade ou a correcção, sobre a aceitação perante a sua religião, de determinada conduta e depois concluiu:
Se não for capaz de contar aos meus pais, então é uma conduta reprovável.
Nem mais. Excelente definição e que vai mais além do que qualquer filosofia ou filósofo.
Monday, March 10, 2008
Sunday, March 02, 2008
Paraphrases
As leis só existirão enqaunto alguém as compreender.
Nous ne sommes pas que la intuition qu'un homme plus jeune que nous a eu dans nôtre dérriere existence. Et qu'est-ce que reste aprés le moment de mourire? Pas vitéssement, nous nous rencontrerons avec nôtre passé, et aussi , pourquoi non, avec nôtre anima gemini, et aussi avec nôtres ennemi(e)s.
O meu esquecimento acaba em ti.
A minha compreensão comeća em ti.
O meu sofrimento acaba em ti.
Friday, February 22, 2008
Friday, December 07, 2007
Casa do David em Coloane
As veias, as mãos, a música, o órgão electrónico
E tudo o mais é Mar e no que mais desagua a vida
Monday, November 26, 2007
Chinatown Blues
in Nouveau Petite Larrouse, edição de 1971
Lanço o desafio a quem ler este blog (http://aformiganegra.blogspot.com/2007/11/desafio-da-frase.html)
Thursday, August 30, 2007
Tuesday, August 14, 2007
Friday, March 09, 2007
Porque ontem foi o dia Internacional da Mulher
Ideias
À medida que mais e mais vamos aprendendo, começamos a distanciar-mo-nos dos planetas das ideias, para vermos as relações entre eles (elas), as suas órbitas no Universo do conhecimento, as suas relações com or restantes planetas-ideias. E vemos do nosso olhar, cada vez mais distante, que rapidamente as teremos de as deixar para trás, para explorar noutros cantos do Universo: novas existências, novas relações. E se um dia quisermos voltar àquelas ideias, teremos de regressar àquele ponto de vista, àquela perspectiva dum Universo tão gigante e tão imenso.
O risco da beleza
Thursday, February 08, 2007
8 de Fevereiro
Já largámos a Costa há 256 dias. Sinto falta dessa terra. No eterno balançar, sinto que sou alguma parte do universo, somente. Perdi o meu egoísmo há muitas ondas atrás. Não sei bem aonde. E as folhas que escrevi, os planos para esta viagem, já o vento as levou também.
[...]
No meio do silêncio da Terra, oiço um grito, que parece feito de lava. Está prestes a sair, feito vulcão. As paredes desse grito estão cobertas de veias, que me desnudam a pele. Atrevo-me a espreitar para trás para ver donde vim. E já não me acho. O grito está contido dentro do próprio silêncio, que não é mais do que as suas paredes. No silêncio, então, sinto-me forrado. Tapado, aquecido, como meu fiel companheiro, o silêncio existe, para me proteger do frio que me oferece. Estarei no Limbo?
[...]
Na casota, no Jardim, vive um gato preto, por cima do telhado. O cão que habitara dentro da madeira, já há muito fugiu. Dizem que foi pela última vez visto, voando velozmente por entre as Amazónias, perdido na liberdade dos tempos, nos confins da existência. O tempo para ele transformou-se numa cassette sem fim, nem princípio. Deslimitou-se. Bravio.
[...]
Sunday, February 04, 2007
Relato dum náufrago
Amanhã começam as aulas. Também começa o campeonato de futebol da 3ª Divisão de Futebol de Macau. Tenho umas traduçõezitas feitas e tenho umas traduções por acabar já desde o Verão.
Tenho também para a semana 27 anos, por isso está na altura de começar a pensar em boas coisas para mim próprio. Porque um aniversário sempre nos aproxima mais da nossa eterna calma.
Agora, neste preciso momento tenho de meter a minha roupa a lavar e tenho de tomar um banho quente porque está um dia frio (para Macau).
Abraços e beijinhos para toda a gente do Zé
Monday, November 13, 2006
Futebol

Aqui está. Mais um torneio de futebol na Universidade de Direito, e a nossa equipa, com muita emoção à mistura, conseguiu sair vencedora. Parabéns a estes estudantes assíduos do Curso de Direito em Língua Portuguesa. Só não temos é fotografias do decurso dos jogos, mas fica para a imaginação de algum espectador captar da próxima vez.
Um abraço do Zé
Sunday, October 29, 2006
El Centinela
Empieza por decirme su nombre, que es (ya se entiende) el mío.
Vuelvo a la esclavitud que ha durado más de siete veces diez años.
Me impone su memoria.
Me impone las miserias de cada día, la condición humana.
Soy su viejo enfermero; me obliga a que le lave los pies.
Me acecha en los espejos, en la caoba, en los cristales de las tiendas.
Una u otra mujer lo han rechazado y debo compartir su congoja.
Me dicta ahora este poema, que no me gusta.
Me exige el nebuloso aprendizaje del terco anglosajón.
Me ha convertido al culto idolátrico de militares muertos, con los que acaso no podría cambiar una sola palabra.
En el último tramo de la escalero siento que está a mi lado.
Está en mis pasos, en mi voz.
Minuciosamente lo odio.
Advierto con fruición que casi no ve.
Estoy en una celda circular y el infinito muro se estrecha.
Ninguno de los dos engaña al otro, pero los dos mentimos.
Nos conocemos demasiado, inseparable hermano.
Bebes el agua de mi copa y devoras mi pan.
La puerta del suicida está abierta, pero los teólogos afirman que en la sombra ulterior del otro reino estaré yo, esperándome.
Jorge Luis Borges
Friday, October 27, 2006
Caso prático

A - Eu grito por ti!
B - Eu espero por ti!
E no meio, quem vive, senão a dúvida?
A dúvida, além de separar tantas almas gémeas, faz chorar, faz sempre chorar. Mas também traz algo mais. E se no que falta do agora imaginarmos um tempo - quando? - em que os problemas não existiam, mas tão somente a existência das coisas, perene, eterna, as cores a espreguiçarem-se de manhã. As cores, além da escuridão, são a única constante que nos acompanham, e que cruzam o dia e a noite, uma após outra, dia após dia, noite após noite, até se soltarem total e completamente para fora de nós - para a batalha. O Sol gigante levanta o dia, com toda a sua força guerreia a noite para constatar no horizonte, mais uma vez, o milagre das cores. O calor das cores e o frio da escuridão.
Aqui em baixo, no resto do mero mundo, vivem as personagens que não conseguem ver além do dia-a-dia, das necessidades e deveres, dos quereres e dos não-teres. O Sol, o dia nasce com toda a sua batalha ancestral. Havendo ou não lágrima, tristeza, o dia tem de recorrer da noite, injutiçado ou não.
O mundo inteiro é a roda-viva que vê o mundo girar reflectido no Sol brilhante.
De noite, ou quando a noite se aproxima, o que melhor do que contemplar a lua, que de vez em quando descobre cores únicas, amarelos lindos que não encontram em palavras ou saudades sua semelhante.
Na cabana, ao fundo, mora a solidão sozinha, aquecida pela quietude da noite, que roubou do Sol distante, um azul impossivelmente tranquilo, ou era roxo quando o olhei de novo.
Na minha cabana, que agora vejo, no meio da mais triste e silenciosa montanha, que chorava pela manhã, via em sonhos concertos de Mozart abrirem-me não os olhos, mas as portas em volta, na mente, que os fechavam.
O fumo do cigarro que fumava deixava-me estupefacto com o silêncio tranquilo que no meio de tantos gritos eu procurava.
Deitava-me. Debruçava-me sobre aquela solidão recém-descoberta que me trazia acelerada todas as verdades do mundo, num constante vai-vem de este mundo a outra solidão, que numa cascata longínqua no Rio das Amazónias, na Floresta das Amazónias, no Pântano dos Amazónias, me esperava.
O meu grito calava o mundo e aí conseguia de novo ouvir o fluir da cascata - no fundo de tantas brincadeiras, era o que aliás existia, enfim existia, a tudo resistia, num choro claro que ameaçava a toda a hora tornar-se no meio da pedra um esconderijo donde não houvesse mais saída.
Djavan, Caetano, Chico cantavam a esta pedra, como a uma cor líquida que desse vida aos olhos, tão cansados de tanta cegueira.
Noutro lado, o longínquo medo não sabia onde mais se esconder de tanta dúvida. Não conseguia negar mais a existência daquela prova que jamais permitiria ao seu receio enfrentar com os seus olhos o novo mundo que nascia duma música há tanto tempo atrás cantada.
Esta música, inventada primeiramente numa gruta vazia senão por uma menina humana, seus longos cabelos descaindo sobre a solidão em flor dos seus ombros, esta música tinha não só atravessado anos-luz de distância mas também anos-luz de solidão para de novo chegar a ela, subitamente desperta dentro de si mesma, surpresa por ver quão rápido a sua luz não só queria, mas ia fazendo, transportava-se sem mentira, atravessava a ponte que não existia senão dum coração ao outro, no mais completo silêncio mas na mais brusca revelação.
A luz cruzando para o outro lado, assustada pelo mundo novo, lutava contra os rochedos de solidão que lhe caíam perigosamente em cima, descuidados de terem existido.
A luz, entretanto, crescia, naquele dissipar interno e externo de dúvidas, numa clareza externa de ideias que rompia duma vez por todas com a culpa - origem de todos os problemas entre os seres humanos - e que se concentrava cada vez mais numa solidão que, não sendo única, se juntava à outra para romper também com o mundo que delas se distanciava. Como se catapultassem para uma nova dimensão, entre o céu e a terra, no espaço solto imenso, entre o sonho acordado, nítido, sensorial, íntimo e pleno de significado, e a realidade, alerta, brusca, nunca suficiente, nunca perceptível ou possível sem esta dimensão, que acabava por afectar a vida como a lua afecta as marés, e como o barco, sólido de madeira castanha, caminha pelo ruminar das ondas num baloiçar estonteante.

